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Sexta Europeia: o ano em que o Real Madrid não venceu nada

A temporada europeia chega ao seu epílogo e o Real Madrid, esse clube que parece feito para vencer, encerra 2025/26 sem absolutamente nenhum troféu. Pela segunda vez seguida. Não é coincidência — é diagnóstico.

Marcos Vinícius Santos
Marcos Vinícius Santos
6 min de leitura
Sexta Europeia: o ano em que o Real Madrid não venceu nada
Ilustração — Santiago Bernabéu vazio sob luz crepuscular: o silêncio incomum de uma temporada sem troféus para o Real Madrid

Há clubes que perdem títulos. O Real Madrid, esse animal estranho da história do futebol, normalmente os perde como quem perde uma chave de casa: incomodado, mas certo de que vai aparecer em algum lugar dentro de minutos. Não em 2025/26. Desta vez a chave sumiu de verdade, a casa ficou fechada e o porteiro — Florentino Pérez — passou o ano inteiro mexendo no chaveiro errado.

O Barcelona ergueu La Liga no último domingo, 10 de maio, ao bater o próprio rival por 2 a 0 no Camp Nou. Foi o 29º título espanhol dos catalães, conquistado com três rodadas de antecedência. Para os merengues, foi o último prego num caixão que vinha sendo construído desde outubro. Pela segunda temporada consecutiva, o Real Madrid termina o ano sem absolutamente nada. Nem La Liga. Nem Champions. Nem Copa do Rei. Nem Supercopa. Nada.

E quando o Real fica em silêncio, a Europa inteira percebe o vazio.

Outubro: o mês em que tudo começou a desmoronar

A primeira fissura apareceu cedo. No clássico contra o Barcelona em outubro de 2025, com a partida apertada, Vinícius Júnior foi substituído num momento delicado e explodiu na beira do gramado, gesticulando, falando alto, e em seguida tomou o caminho do vestiário antes do apito final. A imagem viralizou. O técnico, Xabi Alonso, manteve a postura — um basco que aprendeu a treinar na Alemanha e que não negocia disciplina. Mas o vestiário, esse animal coletivo que nenhum manual ensina a domesticar, já começava a se virar contra ele.

Foi só o começo. Em janeiro, na decisão da Supercopa, novo Clásico, nova derrota. E desta vez Mbappé entrou em rota direta de colisão com o treinador: enquanto Alonso pedia respeito ao adversário e fila ordenada para cumprimentar os campeões, o francês puxava companheiros para longe, recusava-se a homenagear Lamine Yamal e companhia, e ignorava o protocolo. As fotos correram o mundo. Quem estava acima de quem ali, o treinador ou a estrela?

A resposta veio rápido. Xabi Alonso saiu depois de 233 dias no cargo — uma das passagens mais curtas de um técnico merengue no século. Álvaro Arbeloa, filho da casa, herói de outros tempos, foi tirado do comando do Castilla para apagar incêndio. Não apagou. Conduziu o time até o fim da temporada como quem dirige um carro sem freio numa descida — gerenciando o estrago, não revertendo.

Munique: o adeus europeu mais doloroso da década

O Real chegou nas quartas da Champions com a casca de favorito que sempre carrega, e foi para Munique sabendo que ia precisar suar. Na ida, no Bernabéu, Harry Kane voltou de lesão para entregar o jogo aos bávaros: 2 a 1 para o Bayern. Veja a análise completa da ida no Bernabéu.

A volta na Allianz Arena, no dia 15 de abril, foi um daqueles jogos que entram para o folclore europeu — e desta vez, para o lado errado da história madridista. O Bayern venceu por 4 a 3, com dois gols nos minutos finais, e fechou o agregado em 6 a 4. Luis Díaz e Michael Olise carimbaram o passaporte para as semifinais alemãs e o ônibus do Real Madrid voltou para a Espanha levando carga preciosa: o ouro vazio de uma derrota que confirmou o que já se desconfiava desde o outono — esta versão merengue não tinha alma para grandes noites. Quem quiser reviver o clássico, a crônica do 4 a 3 na Allianz está lá.

A partir dali, La Liga virou só obrigação. E Barcelona, que vinha embalado com Lamine Yamal, Pedri e o reforço Marcus Rashford, encheu os bolsos: invicto contra o Real em todos os clássicos da temporada — quatro encontros, quatro decepções para Florentino.

Mbappé, Vinicius e o problema que ninguém quer nomear

Esta coluna escreve há tempo sobre o que o Real Madrid se recusa a admitir em alto e bom som: o projeto Mbappé + Vinícius Júnior não funcionou como esperado. Os dois não se completam, se concorrem. Os dois querem a mesma bola, o mesmo lado do campo, a mesma centralidade na narrativa. Quando o time vence — e isso aconteceu pouco em 2025/26 — disfarça. Quando o time perde, fica nu.

Mbappé, com lesão tratada desde abril e olho na Copa do Mundo, virou figura desencaixada do vestiário. Vinícius, segundo relatos espanhóis, foi um dos protagonistas da queda de Xabi Alonso. Bellingham, encolhido, desapareceu. Rodrygo, marginalizado, viu o ano passar do banco. Quando o time mais precisava de coesão, encontrou apenas hierarquias sussurradas e desconfortos não resolvidos.

A reformulação que vem aí — e o aceno fantasma de Mourinho

Florentino Pérez, que tantas vezes navegou crises com mãos firmes, admitiu o fracasso. A imprensa espanhola já desenhou os contornos da próxima temporada: cinco saídas garantidas (Fran García, Camavinga, Raúl Asensio, Dani Ceballos e Gonzalo García), três reforços e dois retornos certeiros de empréstimos — Endrick, que renasceu no Lyon e bateu o PSG na Ligue 1 em março, e Nico Paz, sensação do Como italiano.

E o nome do próximo treinador? José Mourinho. Os jornais espanhóis cravam o português como favorito absoluto para suceder Arbeloa, que não fica. É o aceno melancólico ao passado — Mourinho passou pelo Real Madrid entre 2010 e 2013, ganhou uma La Liga numa era em que ganhar do Barcelona de Guardiola era proeza épica, e saiu em meio a guerra aberta com Casillas e parte do vestiário. Voltaria como solução para um time que precisa, antes de tudo, de carácter e identidade. A história do futebol é cíclica — mas raramente generosa com quem repete movimentos.

A Europa respira (por enquanto)

Enquanto o Real se reconstrói, a Europa do futebol exala. Barcelona dominou a Espanha. PSG, defendendo título, prepara a final de Budapeste contra o Arsenal no dia 30 — leia a análise completa de PSG x Arsenal. Carlo Ancelotti, que abandonou o Bernabéu na temporada passada, agora dirige a Seleção Brasileira a caminho da Copa do Mundo — sua pré-lista para o Mundial saiu na semana passada. O calendário do continente seguiu em frente, e ninguém parou para esperar o Real Madrid se recompor.

Vai voltar. Sempre volta. É o que esses clubes históricos fazem — caem, se enchem de dinheiro novo, contratam o próximo redentor, e três anos depois estão ali, levantando taça com discurso de quem nunca abalou. Mas 2025/26 fica como cicatriz e como evidência: o Real Madrid é mortal. Pode perder uma temporada inteira. Pode atravessar onze meses sem nada a comemorar. Pode ser eliminado em Munique, pode ver o Barcelona dançar no Bernabéu, pode trocar de técnico no meio do ano e mesmo assim chegar a maio sem troféu.

A Europa, por um momento, viu o gigante sentar para descansar. E descobriu que, sem ele em cima, o futebol continua a girar tranquilamente.

Até a próxima sexta.

Fonte: ESPN, Al Jazeera, Trivela, Eurosport | Informações adicionais por Beira do Campo

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Marcos Vinícius Santos
Marcos Vinícius Santos

Correspondente Internacional

Morou 8 anos na Europa cobrindo as principais ligas. Fluente em inglês, espanhol e italiano. Acompanha de perto brasileiros no exterior e os bastidores do futebol europeu.