Copa 2026: as duas últimas vagas são decididas hoje no México
Jamaica e RD Congo duelam em Guadalajara; Iraq e Bolívia fecham a noite em Monterrey. Os dois vencedores entram em grupos com Portugal e França — e carregam décadas de espera nas costas.


O guia completo da Copa do Mundo de 2026 está quase completo. Das 48 vagas disponíveis, 46 já foram preenchidas por nações que sonharam, suaram e construíram seu caminho até os Estados Unidos, México e Canadá. Faltam duas. E elas serão disputadas hoje, no México, por quatro seleções que chegaram a este momento carregando histórias que vão muito além de um resultado.
Dois jogos. Duas finais. E décadas de ausência para ser encerradas — ou prolongadas por mais quatro anos.
28 anos ou 52: o peso da história em Guadalajara
No Estadio Akron, em Guadalajara, Jamaica e República Democrática do Congo disputam o primeiro lugar desta tarde. O encontro tem uma simetria quase literária: de um lado, uma ilha caribenha que foi ao Mundial uma única vez, em 1998, e desde então guarda a Copa como uma lembrança de infância que nunca mais se repetiu. Do outro, um gigante africano que pisou em uma Copa na era em que ainda se chamava Zaire — era 1974, na Alemanha Ocidental, já cinco décadas atrás.
A Jamaica chegou aqui com um gol de Bailey-Tye Cadamarteri, atacante do Wrexham, que converteu um rebote aos 18 minutos para superar a Nova Caledônia na semifinal. Um nome pouco conhecido fora das ilhas, mas que pode entrar para a história dos "Reggae Boyz" com um simples placar. A RD Congo, por sua vez, eliminou a Nigéria em novembro nos pênaltis — 4x3 numa classificação que virou processo na FIFA, com questionamentos sobre a elegibilidade de jogadores com dupla cidadania europeia. O veredicto ainda não saiu. O jogo, sim.
Quem vencer herda o Grupo K do Mundial, ao lado de Portugal, Colômbia e Uzbequistão. A estreia será justamente contra os lusitanos, em 17 de junho, em Houston. É o tipo de adversário que transforma classificação em missão. A Jamaica de Renê Simões em 1998 também chegou assim — como azarão, com história, com música. O futebol permite essas narrativas.
Em Monterrey, o futebol além das fronteiras
A segunda final acontece no Estadio BBVA, em Monterrey, às 2h da madrugada de quarta-feira. Iraq e Bolívia jogam pelo Grupo I da Copa, que tem França, Senegal e Noruega. Dois países que chegaram ao México por caminhos radicalmente diferentes — e ambos com a Copa como algo quase mítico.
O Iraq entrou em campo nestas eliminatórias com o mundo literalmente ao redor deles em chamas. O conflito regional que eclodiu em fevereiro deste ano fechou o espaço aéreo iraquiano e a FIFA teve que fretar um avião particular para transportar o elenco até o México. O técnico Graham Arnold, australiano que já levou o próprio país à Copa em 2022, comanda uma seleção que só foi a um Mundial — México 1986, há quarenta anos. A história do futebol está cheia de personagens que cruzaram guerras para jogar. Este pode ser mais um capítulo.
A Bolívia chegou aqui pela força de uma virada. Na semifinal, o Suriname abriu o placar aos 47 minutos do segundo tempo. Parecia acabado. Moisés Paniagua empatou de rebote aos 71', e Miguel Terceros converteu pênalti nos acréscimos para selar a classificação. Trinta e dois anos depois de USA 1994, a Bolívia pode voltar ao lugar onde o Roberto Peredo marcou de falta contra a Espanha — o único gol boliviano em Copas do Mundo. A memória do futebol andino guarda esse momento como relíquia.
Dois grupos, dois destinos
Estas finais são o desfecho do torneio intercontinental de repescagem que reuniu seis confederações e os países que ficaram no limiar da classificação pelos seus próprios continentes. O sistema garante que nenhuma grande confederação monopolize todas as vagas restantes — e que histórias como a do Iraq, da Jamaica, da Bolívia e da RD Congo ainda caibam em um Mundial de 48 seleções.
O vencedor do Grupo K vai cruzar com Portugal no início do torneio; o do Grupo I, com a França de Mbappé. São sorteios que soam como castigo e presente ao mesmo tempo — a Copa, no fundo, sempre foi isso.
Hoje, às margens do futebol mainstream, dois jogos no México completam o quebra-cabeça. Quando o árbitro apitar o final em Monterrey, madrugada adentro, 48 seleções vão ter um rosto e um nome. E duas delas vão ter esperado décadas para chegar até lá.
Fonte: beIN Sports, CBS Sports, FIFA | Informações adicionais por Beira do Campo

Correspondente Internacional
Morou 8 anos na Europa cobrindo as principais ligas. Fluente em inglês, espanhol e italiano. Acompanha de perto brasileiros no exterior e os bastidores do futebol europeu.


