Neymar não está no álbum da Copa 2026. E o Brasil está bem assim
A Panini excluiu Neymar do álbum oficial da Copa do Mundo 2026. Ele mandou torcedor calar a boca em abril. Ancelotti ainda faz mistério. Neide Ferreira pergunta: por que o Brasil ainda discute isso?


Deixa eu começar com um fato que resumiu uma era inteira sem precisar de uma palavra: Neymar não está no álbum de figurinhas oficial da Copa do Mundo 2026. A Panini, em parceria com a FIFA, montou o maior mercado de cromos da história do futebol e simplesmente não incluiu o jogador mais famoso que o Brasil exportou nos últimos vinte anos.
Não foi esquecimento. Foi critério. E critério, no futebol, diz mais do que qualquer coletiva de imprensa.
O álbum disse o que ninguém tinha coragem de falar
Tem gente indignada com a ausência. Jura que é injustiça, que o cara tem 78 gols pela seleção, que Copa sem Neymar não tem graça. Eu entendo o argumento sentimental — cresci assistindo ele driblar todo mundo no Santos com dezesseis anos e nunca vou esquecer os arrepios de 2013.
Mas sai da saudade e entra em abril de 2026. Em dois jogos distintos, Neymar entrou em rota de colisão com a própria torcida. No dia 14, após o empate em 1 a 1 com o Deportivo Recoleta pela Copa Sul-Americana, torcedores o chamaram de "mimado". Ele enfiou o dedo nos lábios e mandou o cara calar a boca. Chamou alguém de "gordinho" nas bordas do campo. Depois disse que "dava a vida" no jogo. Será.
Menos de uma semana depois, na derrota por 3 a 2 para o Fluminense pelo Brasileirão, saiu de campo cobrindo os ouvidos com as mãos. No dia seguinte, publicou vídeo dizendo que estava "só coçando o ouvido". O Brasil inteiro assistiu. Ninguém acreditou.
Dois meses. Dois gestos. Mesma atitude. Isso não é coincidência. É comportamento.
Os números de quem ainda defende a convocação
Uma pesquisa do Datafolha mostra que 53% dos brasileiros querem Neymar na Copa. Metade do país ainda acredita. Carlo Ancelotti disse que ele "está no caminho certo" e precisa de mais dois meses para provar. A lista definitiva sai dia 18 de maio.
Eu respeito os dados. Mas 53% também significa que 47% já fechou a conta. E esse 47% cresceu consideravelmente em abril.
Neymar tem 34 anos. Voltou de ruptura do ligamento cruzado. No Santos, o clube onde ele mesmo pediu para jogar, oscila entre lampejos brilhantes e apagões preocupantes. A seleção já acumula outros problemas para resolver antes de embarcar: o Estêvão está lesionado no Chelsea, Rodrygo saiu machucado, o elenco é mais curto do que parece. Por que a gente quer adicionar uma variável emocional instável nessa conta?
O contra-argumento honesto
Vou dar o braço a torcer numa coisa: nenhum jogador com quatro Copas do Mundo no currículo merece ser descartado sem chance de defesa. Se Neymar chegar ao fim da temporada com o Santos dos dias de graça, sem confusão com torcedores, sem drama de bastidor, sem suspensão, ele vai ter argumento de sobra. O gol 79, talvez 80 pela seleção, ainda está na mesa. O peso histórico é inegável.
Ancelotti não é bobo. Quando diz que Neymar "pode estar" no elenco dependendo de performance, está abrindo uma porta — não escancarando, não fechando. Está medindo.
O problema é que Neymar sempre precisou de mais do que mérito para ser defendido. Precisou de paciência, de perdão, de uma torcida disposta a olhar para o lado em momentos inconvenientes. E essa disposição foi diminuindo a cada Copa, a cada lesão grave, a cada gesto de um jogador que ainda não entendeu que carreira tem prazo de validade.
A Copa de 2026 não precisa de um problema extra
O Brasil vai disputar um Mundial com 48 seleções, formato inédito, em solo americano. É a maior Copa da história. A janela para o hexacampeonato está aberta como talvez nunca esteve desde 2002. A seleção tem Vinícius Jr., Raphinha, Endrick, jovens que jogam em elite europeia toda semana com consistência.
Neymar dentro do grupo, com motivação e saúde, ainda é um acréscimo. Neymar mandando torcedor calar a boca e fazendo teatro de "coçando o ouvido" é um passivo. Dentro de uma Copa do Mundo, passivo não tem como esconder.
A Panini, sem querer, fez a pergunta que técnico nenhum quer responder em coletiva: e se o Brasil for sem ele?
Eu acho que dá. E que talvez seja a hora de descobrir.
Neide Ferreira escreve às quintas na coluna Quinta Polêmica.
Fonte: CNN Brasil, Terra, Datafolha | Informações adicionais por Beira do Campo

Colunista
Neide Ferreira, 58 anos de paixão pelo futebol. Colunista que não tem medo de falar o que pensa. Voz da torcida, defensora do futebol raiz e inimiga da hipocrisia no esporte.


