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Diniz é o décimo: e o Corinthians ainda busca atalho no Derby

Fernando Diniz tem cinco dias de trabalho e já estreia no Brasileirão contra o Palmeiras líder. Neide Ferreira questiona: o Corinthians muda de técnico para se salvar ou para ter desculpa?

Neide Ferreira
Neide Ferreira
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Diniz é o décimo: e o Corinthians ainda busca atalho no Derby
Ilustração — O banco vazio: metáfora do Corinthians que troca de técnico sem parar

Fernando Diniz tem cinco dias no Corinthians. Cinco dias. E já vai encarar Abel Ferreira no Derby mais desequilibrado dos últimos anos — Palmeiras com 25 pontos, Corinthians com 10, uma diferença que só existia em campeonatos distintos ou em tabelas que ninguém queria ver. O Timão não planeja mais, improvisa. E chama improvisação de ousadia.

O décimo técnico de Abel

Desde que Abel Ferreira chegou ao Palmeiras, em outubro de 2020, o Corinthians esgotou a paciência de dez treinadores. Dez. Mancini, Sylvinho, Vítor Pereira, Fernando Lázaro, Danilo, Luxemburgo, António Oliveira, Ramón Díaz, Dorival Júnior e agora Fernando Diniz. Cada um chegou com a promessa de virar a chave. A chave nunca virou — a diretoria trocou o chaveiro.

Com Dorival, o clube foi campeão da Copa do Brasil em 2025. O mesmo Dorival que foi demitido por... 9 jogos sem vencer. Nos bastidores, a justificativa foi baixo número de finalizações, falta de ofensividade, previsibilidade tática. A conta? R$ 6 milhões de reais em multa rescisória. Para um técnico que deu título. Faz sentido só se você acredita que no Parque São Jorge o presente nunca importa — só a narrativa do próximo ciclo.

Diniz chegou na segunda (6/04), treinou terça, estreou quinta na Libertadores e venceu por 2x0 contra o Platense em Buenos Aires. Ótimo. Mas seis dias depois o adversário se chama Palmeiras, no Brasileirão, e o contexto é completamente outro.

O histórico que a empolgação não apaga

O Derby de hoje tem favoritismo explícito. O Palmeiras está invicto há cinco rodadas, lidera com folga e chega com Abel tendo mais de seis anos de trabalho contínuo, seis títulos no clube e elenco montado para o seu sistema. Diniz chega com cinco dias de treino, sem Memphis Depay — o principal reforço do Corinthians nos últimos meses, agora lesionado sem previsão de retorno — e com um grupo que aprendeu a jogar no sistema de Dorival.

Mais grave: o histórico pessoal de Diniz contra Abel não é animador. Em seis encontros diretos — pelo Fluminense (2022, 2023), Cruzeiro (2024) e Vasco (2025) — o treinador venceu uma vez, empatou duas e perdeu três. A única vitória foi um belo 2x1 do Flu em agosto de 2023, ano que terminaria com a Libertadores em Laranjeiras. Mas foi exceção, não padrão.

Diniz é um técnico honesto e inteligente. O "Dinizismo" — aquele futebol de associação fluente, muitos jogadores na bola ao mesmo tempo, sem marcações rígidas de posição — funcionou em Laranjeiras, virou título continental, transformou o Fluminense num time que o mundo admirava. Ele tem uma filosofia clara. O problema é que filosofia precisa de tempo. E no Corinthians, tempo é a commodity mais escassa.

O Palmeiras ganhou com estabilidade, não com mágica

Aqui vai o contra-argumento que todo corintiano vai me mandar: "Mas Neide, Diniz já provou que trabalha sob pressão." Verdade. Mas provou onde? Num clube com estrutura, com elenco, com diretoria que deixou ele atuar por mais de dois anos consecutivos. O Fluminense de 2023 não era o Corinthians de 2026 com 10 pontos em 10 rodadas e um dos elencos mais caros do país rendendo abaixo da média.

O problema do Corinthians não é o nome do técnico. É um modelo de gestão que trata o treinador como band-aid: coloca, tira, coloca outro. Quando o resultado não vem em três semanas, vem a demissão, a conta milionária e a narrativa do "novo ciclo". O torcedor alvinegro merece uma estrutura que funcione, não um carrossel de nomes respeitáveis sendo triturados pela inconstância.

Do outro lado, Abel Ferreira chega ao Derby mais estável e dominante do que nunca. Não porque é o melhor técnico do planeta. Porque o Palmeiras deixa o técnico trabalhar. A estabilidade é o real diferencial — não o sobrenome na lousa. É simples assim.

Torça pelo Corinthians, mas não compre a narrativa

Torço para o Corinthians ganhar hoje. De verdade. Uma virada tática de Diniz sobre Abel, na Neo Química Arena, seria um resultado bonito e merecido para a torcida. Futebol surpreende, e já vi coisas mais improváveis acontecerem.

Mas se o Palmeiras ganhar — e há razões objetivas para que isso aconteça — o diagnóstico precisa ser honesto: não foi culpa do Fernando Diniz. Foi culpa de um clube que demitiu um técnico campeão, pagou R$ 6 milhões na rescisão, chamou outro treinador, deu a ele cinco dias de trabalho e o jogou num Derby Paulista com 15 pontos de desvantagem na tabela. Isso não é projeto. É improvisação que se repete até parecer estratégia.

O Corinthians precisa de um espelho mais do que de um novo técnico. Espero que alguém no Parque São Jorge finalmente olhe para ele.

Fonte: ESPN Brasil, MeuTimão, Metrópoles | Informações adicionais por Beira do Campo

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Neide Ferreira
Neide Ferreira

Colunista

Neide Ferreira, 58 anos de paixão pelo futebol. Colunista que não tem medo de falar o que pensa. Voz da torcida, defensora do futebol raiz e inimiga da hipocrisia no esporte.