O melhor do futebol brasileiro, todos os dias
Beira do Campo
BEIRADO CAMPO
Champions League

O Liverpool que não aprende está perdido nas oitavas da Champions

Lemina cabeceou no segundo poste no sétimo minuto e o Liverpool perdeu 0 a 1 para o Galatasaray em Istambul. Uma derrota previsível para quem acompanhou a temporada dos Reds.

Neide Ferreira
Neide Ferreira
5 min de leitura
O Liverpool que não aprende está perdido nas oitavas da Champions
Galatasaray 1x0 Liverpool nas oitavas da Champions League — Foto: Reprodução / Gazeta Esportiva

Mário Lemina cabeceou um escanteio no sétimo minuto e o Liverpool saiu do campo perdendo por 1 a 0 para o Galatasaray no RAMS Park, em Istambul. Surpresa? Só para quem não prestou atenção durante a temporada inteira dos Reds. O problema com bola parada do Liverpool não é novidade — é manchete antiga, repetida semana após semana e ignorada solenemente por Arne Slot. Nesta terça-feira, na abertura das oitavas de final da Champions League, a conta chegou.

O Galatasaray volta para casa com vantagem de 1 a 0 antes do jogo de volta, semana que vem, em Anfield. O Liverpool tem sete dias para descobrir como sair dessa cilada que ele mesmo ajudou a construir.

O escanteio que era só questão de tempo

Não precisa ser analista de elite para saber o que ia acontecer no sétimo minuto em Istambul. Noa Lang conquistou o escanteio pela esquerda, Gabriel Sara cobrou na medida, Victor Osimhen cabeceou cruzado no segundo poste — Joe Gomez perdeu o duelo aéreo —, e Lemina apareceu completamente livre para empurrar para as redes. Hugo Ekitike e Milos Kerkez ficaram parados, olhando o gol entrar.

Livre. Em um escanteio. Com folhas de pagamento entre as maiores do planeta e uma equipe montada para brigar pelo título europeu. Se isso não é a definição de problema estrutural, não sei o que é.

O Galatasaray não precisou de genialidade tática. Precisou de organização básica e de um Liverpool que, vulnerável a escanteios durante toda a temporada inglesa, confirmou exatamente o que os números já gritavam há meses. Como a prévia das oitavas desta terça-feira já alertava, os desafios da rodada eram enormes — mas a forma como o Liverpool caiu foi de deixar qualquer torcedor vermelho sem resposta.

Os números que Slot preferia não enxergar

Florian Wirtz desperdiçou pelo menos três chances claras ao longo da partida. Giorgi Mamardashvili — goleiro de alto nível, diga-se — foi obrigado a trabalhar repetidamente para evitar que o placar se tornasse humilhante. Victor Osimhen ainda viu um gol anulado pelo VAR por impedimento milimétrico na segunda etapa, o que teria acabado com qualquer esperança de reação. O Liverpool esteve no jogo. O Liverpool criou. O Liverpool foi embora derrotado por um único gol marcado em bola parada logo no começo.

Isso tem nome: ineficiência ofensiva somada a fragilidade defensiva em bola parada. É uma mistura letal em mata-mata europeu, e Slot ainda não encontrou o antídoto. Para quem acompanha o que os brasileiros têm feito nas oitavas da Champions, torcer pelo tropeço de gigantes como o Liverpool é sempre uma esperança a mais para quem está do outro lado da chave.

Anfield vai ajudar — mas o Galatasaray não vai de turista

Aqui vai o argumento que vai encher as redes sociais nos próximos dias: "Anfield é Anfield, a noite de Anfield vai reverter." Pode. Já aconteceu antes. A torcida vai enlouquecer, Wirtz vai criar espaços, o ataque vermelho vai assustar desde o apito inicial. Tudo isso é verdade, e não tem como negar.

Mas vantagem de 1 a 0 para fora, com um Galatasaray organizado, disciplinado e com Victor Osimhen capaz de resolver qualquer partida no contra-ataque, não é coisa de time que vai a Anfield para passear. O clube turco chegou às oitavas com uma campanha sólida na fase de grupos e demonstrou nesta terça que sabe como se comportar em jogos grandes. Para reverter, o Liverpool precisa marcar sem tomar gol — e aí voltamos ao ponto de partida: a defesa em bola parada dos Reds é um convite aberto para quem quiser cobrar.

O próprio Slot vai ter que explicar por que o Galatasaray ensaiou exatamente a fragilidade que todos viam, e o Liverpool nada fez para corrigir.

A noite em que a Champions virou uma aula

A terça-feira foi pródiga em histórias na Champions. O Atlético de Madrid fez 4 gols no primeiro tempo contra o Tottenham e venceu por 5 a 2, com Julián Álvarez marcando duas vezes e Griezmann sendo Griezmann. O clube espanhol entrou para a história ao atingir esse número no primeiro tempo de um jogo de Liga dos Campeões pela primeira vez na competição. O Newcastle e o Barcelona empataram em 1 a 1, com Lamine Yamal decretando o empate no último chute do jogo e frustrando os ingleses de St. James' Park que estavam tão perto de uma vitória preciosa.

Mas o resultado mais revelador da noite foi o 1 a 0 tranquilo, previsível e absolutamente evitável em Istambul. Sem goleada histórica. Sem drama de última hora. Um escanteio bem ensaiado, uma marcação inexistente e um volante livre para cabecear. O futebol em sua forma mais simples, ensinando a um dos clubes mais ricos do mundo que dinheiro não compra organização defensiva.

O Galatasaray tem uma semana para afiar o contra-ataque em Anfield. O Liverpool tem uma semana para aprender a defender escanteio. Pelo que vimos hoje, um desses objetivos é muito mais difícil do que parece.


Neide Ferreira é colunista do Beira do Campo.

Fonte: Gazeta Esportiva, ESPN Brasil, CNN Brasil | Informações adicionais por Beira do Campo

#champions-league#liverpool#galatasaray#oitavas#neide#premier-league
Neide Ferreira
Neide Ferreira

Colunista

Neide Ferreira, 58 anos de paixão pelo futebol. Colunista que não tem medo de falar o que pensa. Voz da torcida, defensora do futebol raiz e inimiga da hipocrisia no esporte.