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Beirado Campo
Opinião

Clube do bilhão: o dinheiro nunca sobrou tanto (e a conta é sua)

Palmeiras, Botafogo e Flamengo já valem mais de R$ 1 bilhão cada, a janela extra abriu nesta quinta e os clubes trocam milhões entre si. Neide Ferreira pergunta: se nunca se gastou tanto, por que a Seleção caiu nas oitavas e o Brasileirão continua embolado?

Neide FerreiraNeide Ferreira5 min de leitura
Clube do bilhão: o dinheiro nunca sobrou tanto (e a conta é sua)
Ilustração — Arquibancada lotada de um estádio brasileiro: é o torcedor quem sustenta o clube do bilhão

Vou começar pela conta que ninguém quer somar em voz alta: três clubes brasileiros hoje valem mais de R$ 1 bilhão em elenco, o mercado nunca movimentou tanto dinheiro, e mesmo assim a Seleção acabou de dar as caras em casa pela porta dos fundos e o Brasileirão está tão apertado que doze times cabem em seis pontos. O clube do bilhão virou o novo troféu de vaidade do nosso futebol — e, como todo troféu de vaidade, ele brilha muito mais no balanço do que no gramado.

O clube do bilhão virou a nova vaidade nacional

Os números são reais e vale encará-los de frente. Segundo o levantamento da plataforma TransferRoom, o Palmeiras abre o segundo semestre com o elenco mais caro do país: cerca de 267 milhões de euros, algo como R$ 1,68 bilhão. Atrás vêm Botafogo (R$ 1,24 bilhão) e Flamengo (R$ 1,22 bilhão), fechando o tal trio bilionário. Depois deles, Cruzeiro, Vasco, Corinthians e Fluminense também passam dos R$ 750 milhões. Nunca, mas nunca mesmo, o futebol brasileiro carregou tanto valor no contracheque.

E aí está minha primeira implicância: a gente aprendeu a comemorar isso como se fosse título. Toda vez que sai um ranking de valor de mercado, o torcedor infla o peito como se o clube tivesse levantado uma taça. Só que valor de elenco não é conquista — é potencial. É a promessa de que aquele dinheiro todo, um dia, se transforma em jogo bonito e caneco na estante. E o que a temporada de 2026 mostra é que a promessa anda atrasada. O meio de tabela do Brasileirão está embolado como nunca, com gigantes bilionários brigando para não olhar para baixo. Se dinheiro comprasse desempenho na boca do caixa, o Palmeiras não precisaria suar para se manter no G-4.

A janela extra é o retrato do improviso

Como se a inflação já não bastasse, a CBF resolveu jogar mais lenha na fogueira. Nesta quinta-feira abriu a janela extraordinária de transferências que vai até 17 de julho, criada às pressas para os clubes registrarem reforços nacionais antes da volta do Brasileirão, no dia 16. Traduzindo: adiantaram o mercado porque adiantaram os jogos, e adiantaram os jogos porque o calendário brasileiro é uma colcha de retalhos que ninguém tem coragem de costurar direito.

O resultado dessa pressa já apareceu. O Palmeiras fechou com o zagueiro Alexander Barboza — que, olha só a piada, saiu justamente do Botafogo, outro do clube do bilhão. O Flamengo, atrás de um centroavante e de um meia para preencher a lacuna do Arrascaeta, sonda o Danilo do próprio Botafogo, numa novela que passa dos 40 milhões de euros, enquanto acerta os últimos detalhes do elenco na intertemporada em Portugal. Repare no movimento: o dinheiro grande circula entre meia dúzia de clubes, subindo o preço uns dos outros, num carrossel em que os mesmos nomes trocam de camisa e ninguém do lado de fora entra na roda.

O contra-argumento existe — e ele tem limite

Sou provocadora, não sou injusta. Então vamos ao outro lado. É verdade que o futebol brasileiro se profissionalizou. A chegada das SAFs, o investimento estrangeiro, os patrocínios gordos e a valorização das transmissões trouxeram um dinheiro que nossos clubes jamais viram. Isso segurou craques por mais tempo, tornou a Libertadores praticamente um feudo brasileiro e fez o campeonato mais competitivo de cima a baixo. Ninguém aqui está com saudade da época de calote em folha de pagamento e estádio caindo aos pedaços.

Mas competitividade não é a mesma coisa que eficiência. O dinheiro entrou, e boa parte dele vazou pelo ralo do improviso: elenco inchado, salário alto para reserva, comissão de intermediário e a mania nacional de contratar por impulso a cada janela aberta. Gastar muito é fácil. Difícil é gastar bem — e é justamente aí que o nosso futebol continua reprovado. A derrota da Seleção nas oitavas para a Noruega foi o espelho mais cruel disso: um país que forma e vende talento por bilhões, mas que na hora de montar um projeto de longo prazo ainda depende de sorte e de improviso.

Quem paga a conta desse bilhão

Chego onde queria chegar desde o primeiro parágrafo: essa conta toda tem um pagador, e não é o dirigente que posa sorrindo ao lado do reforço. É você. É o torcedor que banca o ingresso cada vez mais salgado, a mensalidade do sócio, o pacote de streaming que se multiplica a cada temporada e a camisa que passou dos R$ 400. O clube do bilhão não se sustenta com aplauso — se sustenta com o bolso de quem vai à arquibancada e de quem paga para assistir de casa.

Por isso não engulo essa festa de calculadora. Enquanto os clubes exibem seus bilhões como medalha, o produto entregue continua sendo Seleção eliminada cedo, Brasileirão embolado e um calendário que atropela o torcedor para caber mais um jogo na grade. O dinheiro nunca sobrou tanto no futebol brasileiro. Só faltou combinar com a bola — e com quem, no fim do mês, paga por tudo isso.

Tira-dúvidas

Perguntas frequentes

01
Quais clubes brasileiros valem mais de R$ 1 bilhão em 2026?
Palmeiras (R$ 1,68 bilhão), Botafogo (R$ 1,24 bilhão) e Flamengo (R$ 1,22 bilhão) formam o clube do bilhão, segundo levantamento da plataforma TransferRoom.
02
Quando abre a janela extra de transferências do Brasileirão 2026?
A janela extraordinária vai de 9 a 17 de julho de 2026 e libera apenas o registro de jogadores que já atuam no futebol brasileiro.
03
Qual é o elenco mais valioso do futebol brasileiro em 2026?
O do Palmeiras, avaliado em cerca de 267 milhões de euros (R$ 1,68 bilhão), tendo Vitor Roque como jogador mais caro do plantel.

Fonte: ESPN Brasil, Gazeta Esportiva, CNN Brasil, TransferRoom · informações adicionais por Beira do Campo

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Quem escreve

Neide Ferreira
Neide Ferreira

Colunista

Neide Ferreira, 58 anos de paixão pelo futebol. Colunista que não tem medo de falar o que pensa. Voz da torcida, defensora do futebol raiz e inimiga da hipocrisia no esporte.