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O Galo Acordou — Mas Durará o Sono?

Atlético-MG goleou a Chapecoense por 4 a 0 e Dominguez comemorou como se tivesse conquistado a Libertadores. Calma lá. Uma goleada não faz verão, mas os sinais são reais.

Neide Ferreira
Neide Ferreira
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O Galo Acordou — Mas Durará o Sono?
Atlético-MG goleia Chapecoense por 4 a 0 pela rodada 9 do Brasileirão 2026 — Foto: Reprodução / ESPN Brasil

Pode parar com esse cheirinho de bola molhada que o Galo está exalando desde quinta-feira. Eu vi. Todo mundo viu. Quatro a zero, primeira vitória fora de casa no Brasileirão, Bernard abrindo o placar e Reinier fazendo as pessoas se lembrarem de por que o clube pagou caro para trazer esse menino. Dominguez comemorou no campo como se estivesse exorcizando fantasmas — e talvez estivesse, de fato.

Mas daqui a euforia com o ressurgimento do Atlético-MG, existe uma fronteira muito estreita. E é sobre essa fronteira que eu quero falar.

O Que o 4x0 Prova — e o Que Não Prova

O Chapecoense é, sem ofensa, um time em dificuldades. Entrou em campo com seis pontos, hoje está no Z-4 e parece que foi à Arena Condá só para ser vítima do momento atleticano. Nesse contexto, vencer de quatro não é feito — é obrigação.

O que o resultado prova, de verdade, é que o Atlético tem qualidade para ir a campo em qualquer estádio do Brasil e golear adversários menores. Isso, a esta altura do campeonato, ainda precisava de prova. E conseguiu. Bernard marcou seu primeiro gol no Brasileirão 2026. Reinier fez o segundo logo em seguida, no intervalo de sete minutos. Cuello veio na sequência e fechou o primeiro tempo em 3 a 0. Dudu só assinou no acréscimo, porque não havia mais nada a decidir.

Em 45 minutos de futebol, o Galo fez o que não havia conseguido em oito rodadas anteriores: foi letal. A palavra foi do próprio Dominguez — e é essa que importa.

Dominguez Ainda Está Construindo

Eduardo Dominguez chegou ao Galo em fevereiro, após o fracasso com Jorge Sampaoli. Em sete jogos sob seu comando, o Atlético acumula três vitórias, um empate e três derrotas. Não é exatamente um cartão de visita animador, mas a trajetória tem curva positiva — e isso também conta.

A vitória sobre a Chapecoense foi a terceira consecutiva de Dominguez no Brasileirão, confirmando o que o treinador argentino vinha prometendo nos treinos: "Estamos no caminho que queremos." Antes disso, o Galo havia batido o Internacional e o São Paulo, dois adversários de peso muito maior do que a Chape. Visto assim, a goleada não é pico — é continuidade.

Mas continuidade de seis pontos em três jogos, com um intervalo de quase duas semanas para a pausa FIFA no meio, precisa ser confirmada nos próximos ciclos. O Brasileirão não perdoa inconsistência, e o Atlético sabe disso melhor do que ninguém depois de 2025.

O Contra-Argumento Que Incomoda

Aqui está o que me incomoda: o calendário vai virar. O Galo terá de enfrentar adversários que não entregam o passe de graça. E essa versão com Reinier criativo, Bernard elétrico e Cuello infiltrando com precisão vai ser testada de verdade muito em breve.

Deem uma olhada na rodada 9 completa do Brasileirão: Palmeiras invicto, Fluminense vice-líder, Bahia no G-4. O Atlético está em décimo lugar com 11 pontos — oito pontos atrás do líder. Matematicamente recuperável, mas o relógio corre.

O que mais preocupa não é nem a tabela, mas sim a memória muscular do grupo. Este é um elenco que, há pouco mais de um mês, perdeu para o Fluminense por 1 a 0 em casa num jogo que parecia fácil. Times que oscilam assim — e o Galo oscila — não conquistam Brasileirão. Ganham goleadas contra a Chapecoense, empurram Chapecoenses para o Z-4, mas não chegam lá em cima.

Então, O Galo Vai?

Vou ser direta: ainda não sei. E qualquer pessoa que te disser que sabe, está te vendendo ilusão.

O que sei é que Dominguez acertou no modelo de jogo desta semana. O Atlético pressionou alto, transicionou rápido e puniu cada saída errada da Chapecoense. Se o argentino conseguir instalar isso como padrão — e não como performance de ocasião —, o Galo vai virar candidato real a partir do segundo turno.

Se não, vai continuar sendo aquele time que te faz vibrar uma quinta-feira à noite e te desoloa no fim de semana seguinte.

Por ora, o 4x0 é bem-vindo. Bernard de volta, Reinier funcionando, Cuello se adaptando. Existe vida inteligente nesse elenco. Agora, Dominguez precisa provar que sabe mantê-la viva — não só contra a Chapecoense, mas contra quem vier pela frente.

O Galo acordou. Mas aqui em casa, eu ainda durmo com um olho aberto.


Neide Ferreira é colunista do Beira do Campo e não tem papas na língua desde 1998.

Fonte: ESPN Brasil, Lance!, Terra Esportes | Informações adicionais por Beira do Campo

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Neide Ferreira
Neide Ferreira

Colunista

Neide Ferreira, 58 anos de paixão pelo futebol. Colunista que não tem medo de falar o que pensa. Voz da torcida, defensora do futebol raiz e inimiga da hipocrisia no esporte.